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Projeto Acervo Capixaba resgata filmes raros do folclore e do cinema do ES

Registros de audiovisual produzidos pelo folclorista Guilherme Santos Neves e filmes do realizador Antonio Carlos Neves serão exibidos no dia 08 de julho, no Cine Metrópolis, em Vitória, com debate sobre o processo de restauração das obras

A memória da cultura popular e do cinema produzido no Espírito Santo ganhará destaque no Cine Metrópolis, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em Vitória, no próximo dia 08 de julho, das 19h às 22h, em sessão única promovida pela Pique-Bandeira Filmes dentro do projeto Acervo Capixaba. A entrada é gratuita.

A programação inclui a apresentação dos filmes “Alardo e Ticumbi” e “Festa de São Benedito (Serra)”, da coleção de filmes da Comissão Espírito-santense de Folclore, produzidos pelo professor e folclorista Guilherme Santos Neves (1906-1989); e os filmes “Veia Partida”, “Nós viveremos como vivem os pássaros (incompleto)” e “A palavra final de Quincas Berro D’água (incompleto)”, dirigidos pelo cineasta e dramaturgo Antonio Carlos Neves (1944-2007).

Após a exibição das obras, haverá um debate com o público sobre os filmes e a equipe do projeto Acervo Capixaba, que desde 2017 desenvolve trabalhos de pesquisa, restauração e digitalização da produção audiovisual do Espírito Santo. Ao longo desse período, a iniciativa já recuperou 15 filmes de cineastas como Orlando Bomfim Netto, Ramon Alvarado e Antonio Carlos Neves, além de registros históricos da cultura popular. Parte dessa coleção está disponível no site www.acervocapixaba.com.br.

O Projeto Acervo Capixaba é uma produção da Pique-Bandeira Filmes, com recursos do Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo (Funcultura), por meio da Secretaria da Cultura (Secult), e da Lei Paulo Gustavo (LPG), do Governo Federal.

Folclore

Os filmes “Alardo e Ticumbi”, datado de 1950, e “Festa de São Benedito” (Serra), de 1949, apresentam as imagens em movimento mais antigas da cultura popular do Espírito Santo atualmente conhecidas. As duas obras fazem parte de uma coleção de nove filmes produzidos nas décadas de 1940 e 1950 pela Comissão Espírito-Santense de Folclore, que tinha como presidente o pesquisador Guilherme Santos Neves.

Os dois filmes restaurados pelo projeto permaneceram mais de 25 anos sem serem mostrados ao público e foram localizados pelo pesquisador Vitor Graize com a família de Guilherme Santos Neves, responsável pela preservação da memória e do acervo deste importante intelectual capixaba.

“Alardo e Ticumbi”

“Alardo e Ticumbi” reúne, em oito minutos de duração, registros do Alardo de São Sebastião e do Baile de Congo de São Benedito de Conceição da Barra, conhecido como Ticumbi. As apresentações foram registradas em película cinematográfica de 16mm, em cores, sem som direto.

O filme apresenta a luta entre cristãos e mouros representada pelo Alardo, com seu figurino em cores azuis e vermelhas, e parte da encenação, pelo Ticumbi, da disputa entre o Rei de Bamba e o Rei de Congo. Ambas as apresentações foram realizadas nas imediações da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Conceição da Barra.

O Alardo de São Sebastião e o Ticumbi de Conceição da Barra acompanharam a realização do projeto colaborando na identificação das pessoas retratadas nas imagens e gravando uma trilha sonora original para a versão restaurada do filme.

Antes da exibição em Vitória, o filme “Alardo e Ticumbi” teve duas exibições durante a Festa de São Sebastião e São Benedito em Conceição da Barra: no dia 30 de dezembro de 2025 foi projetado no Ensaio Geral do Ticumbi, no Córrego do Alexandre, e no dia 17 de janeiro deste ano foi projetado na parede da Igreja de São Sebastião, em Itaúnas, antes da apresentação do Alardo.

“Festa de São Benedito”

Filmado em película cinematográfica de 16mm, em preto e branco, sem a captação de som direto, “Festa de São Benedito” tem 11 minutos de duração e registra os aspectos principais da celebração religiosa e folclórica no município de Serra: a preparação e a puxada do mastro de São Benedito pelo navio Palermo, as bandas de congo e seus instrumentos tradicionais, a imagem de São Benedito disposta do lado de fora da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Serra Sede. Os festejos retratados ocorrem tradicionalmente no dia 26 de dezembro.

Para a produção dessas obras, o pesquisador Guilherme Santos Neves contou com a estrutura do Serviço de Educação pelo Rádio e Cinema Escolares (SERCE) e com o apoio de dois cinegrafistas vinculados ao órgão estadual: Vitório Busato, responsável pela captação das imagens do Alardo e do Ticumbi, e Luiz Edmundo Malizek (1896-1952), responsável pelas imagens da Puxada do Mastro.

A restauração digital dos filmes foi realizada no Rio de Janeiro, no laboratório da Mapa Filmes e da Link Digital, com coordenação técnica de Débora Butruce. Além das novas cópias digitais de preservação e exibição, o projeto Acervo Capixaba confeccionou uma nova matriz de preservação em película cinematográfica 16mm do filme “Alardo e Ticumbi”. Este material foi depositado no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo.

Contracultura

Um dos precursores do cinema produzido no Espírito Santo, Antonio Carlos Neves teve atuação marcante na contracultura capixaba, utilizando o cinema e o teatro como instrumentos de resistência à repressão da ditadura militar. De sua lavra, o projeto Acervo Capixaba restaurou o curta-metragem de ficção “Veia Partida”, adaptação de uma história do escritor e crítico de cinema Amylton de Almeida, exibido no IV Festival de Cinema Brasileiro JB-Mesbla em 1968. Nessa mostra, o filme conquistou o prêmio de Melhor Fotografia para o capixaba Ramon Alvarado. Em depoimento à Rádio Espírito Santo, em 1976, Toninho Neves exaltou a parceria com o diretor de fotografia.

“Em 1968 eu realizei este filme com fotografia de Ramon Alvarado, honrando o trabalho maravilhoso dele. É um talento de fotógrafo. Para nós, o prêmio de melhor fotografia do festival foi muito importante e, principalmente, para o Ramon, como um reconhecimento justo de um trabalho muito cuidadoso”, afirmou Neves.

O filme foi produzido durante o período em que Toninho Neves juntou-se a um grupo de atores do Teatro Universitário Carioca (TUCA), conforme lembra Ramon Alvarado. Ele descreve o cenário da captação de imagens:

“Quase todo o filme se passa num quarto de uma hospedaria, que foi transformado no quarto do personagem de um pai moribundo que pertence a uma família decadente de classe média baixa. Eu tinha pouco domínio de iluminação interior, de iluminação artificial. Comecei a estudar iluminação e a audiência gostou bastante da luz do filme”, rebobinou.

O filme foi restaurado a partir de um material único preservado pela Cinemateca Brasileira, em São Paulo. A digitalização ocorreu na Argentina, com apoio da Sociedad por el Patrimonio Audiovisual e da Diplomatura en Preservación y Restauración Audiovisual. A restauração digital foi realizada no Rio de Janeiro no laboratório da Mapa Filmes e da Link Digital.

União Soviética

No final dos anos 1960, Antonio Carlos Neves migra para a extinta União Soviética com uma bolsa de estudos para realizar o curso de direção de cinema, teatro e televisão na Escola de Artes Cinematográficas de Moscou (VGIK). Dessa experiência no exílio nasceram o curta “Nós viveremos como vivem os pássaros” e o média-metragem “A palavra final de Quincas Berro D´água”, baseado no romance de Jorge Amado, rodados na primeira metade da década de 1970. No entanto, a mostra do Projeto Acervo Capixaba irá exibir trechos dessas obras, uma vez que o seu conteúdo integral se perdeu na poeira do tempo.

Para o diretor da Pique-Bandeira Filmes, Vitor Graize, a obra de Toninho Neves é fundamental para entender a força do cinema de autor produzido no Espírito Santo, especialmente na década de 1960:

“O relançamento dos filmes de Antonio Carlos Neves pelo projeto Acervo Capixaba, somado ao que já conhecemos das obras de Ramon Alvarado, Paulo Torre e Luiz Tadeu Teixeira, completa um panorama importante do chamado ciclo de cinema amador de Vitória do final dos anos 1960. ‘Veia Partida’ é o primeiro filme de ficção capixaba premiado em um festival nacional e é também o primeiro filme de ficção restaurado pelo projeto”.

Sessão Especial do Projeto Acervo Capixaba:

Data: 08 de julho (quarta-feira)
Local: Cine Metrópolis, Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)
Endereço: Avenida Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras, Vitória (ES)
Entrada: gratuita

Programação

19h: Apresentação do Projeto e da Pesquisa
19h45: Exibição dos filmes “Alardo e Ticumbi” (10min40seg) e “Festa de São Benedito (Serra)” (13min)
20h15: Introdução aos filmes de Antonio Carlos Neves
20h30: Exibição dos filmes “Veia Partida” (23 min.), “Nós viveremos como vivem os pássaros (incompleto)” (12 min.) e “A palavra final de Quincas Berro D’água (incompleto)” (10min.).
21h15: Debate com o público sobre os filmes e o projeto
22h: Encerramento

  • Realização: O projeto Acervo Capixaba – Imagens do Folclore é uma produção da Pique-Bandeira Filmes, com recursos do Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo (Funcultura), da Secretaria da Cultura (Secult), e da Lei Paulo Gustavo (LPG), do Governo Federal, por meio do Edital de Seleção de Projetos de Memória e Preservação Audiovisual (2023).
  • O projeto Acervo Capixaba – Antonio Carlos Neves é uma produção da Pique-Bandeira Filmes, realizado com recursos do Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo (Funcultura), da Secretaria da Cultura (Secult), por meio do Edital de Seleção de Projetos nº 005/2019 – Setorial de Audiovisual.
Ficha Técnica do projeto acervo Capixaba – Imagens Folclore:

Coordenação e produção executiva: Vitor Graize
Pesquisa: Luana Cabral
Coordenação Técnica e Consultoria de Preservação Digital: Débora Butruce
Digitalização e restauração digital: Mapa Filmes do Brasil
Finalização: Link Digital
Pesquisa local: Didito Camilo e Jefferson Gonçalves
Regência e produção musical: Maestro Eduardo Lucas
Técnico de gravação e mixagem: André Akira
Registro fotográfico: Danilo Lopes
Produção: Pique-Bandeira Filmes

Ficha Técnica do Projeto Acervo Capixaba – Antonio Neves:

Realização: Pique-Bandeira Filmes
Coordenação do Projeto e Produção Executiva: Vitor Graize
Pesquisa: Luana Cabral e Vitor Graize
Digitalização 4K: DiPRA/Sociedad por el Património Audiovisual
Digitalização de som: Laboratório de Imagem e Som da Cinemateca Brasileira
Recuperação Sonora: José Luiz Sasso
Restauração em 2K: Mapa Filmes do Brasil

Sobre Guilherme Santos Neves:

Guilherme Santos Neves nasceu em Porto Final, vilarejo no distrito de Mascarenhas, município de Baixo Guandu (ES), em 14 de setembro de 1906, e faleceu em Vitória, em 21 de novembro de 1989. Pesquisador do folclore capixaba desde a década de 1940, começou a publicar seus textos no jornal A Tribuna, de Vitória. Em 1946 fundou o Centro Capixaba de Folclore, vinculado à Academia Espírito-santense de Letras; em 1948, a Comissão Espírito-santense de Folclore, de que foi secretário geral, à frente de uma equipe de pesquisadores formada por Renato Pacheco, Hermógenes Lima Fonseca, Christiano Fraga, Eugênio Sette, Eurípides Queiroz do Valle, José Leão Nunes, Maria Penedo, Jair Dessaune, Fausto Teixeira e outros. Também em 1948 fundou o Boletim Folclore, do qual foi editor até o seu último número, lançado em 1982.

Neves foi um dos 11 membros do Conselho Nacional de Folclore, junto a Câmara Cascudo, Renato Almeida, e outros. Foi ainda membro da Academia Espírito-santense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES). Suas atividades de pesquisa do folclore capixaba cobriram quase todo o território do Estado e resultaram em centenas de estudos sobre as mais diferentes manifestações folclóricas, bem como em centenas de fotografias, inúmeras gravações em áudio e diversos filmes.

Do autor, destacamos a publicação, em 2008, da obra “Coletânea de estudos e registros do folclore capixaba – 1944-1982”, organizada por Reinaldo Santos Neves; e o lançamento, em 2007, do CD “Cantigas de roda: Versões capixabas para coral infantil e orquestra de câmera”, produção de Rogério Coimbra.

Sobre Antonio Carlos Neves:

Antonio Carlos Neves (Vitória, 1944-2007) foi diretor de cinema, teatro e televisão. Em Vitória, em 1966, fundou o Grupo Geração e concluiu dois filmes: “Alto a la Agresión” (1967) e “Veia Partida” (1968), ambos exibidos no Festival de Cinema Amador JB-Mesbla, no Rio de Janeiro. Em 1968 viaja para a França e em seguida para a União Soviética, para estudar Direção de Cinema, Teatro e Televisão na Academia de Artes Cinematográficas de Moscou. Conclui o curso de direção e permanece seis anos em Moscou, onde realiza três curtas (“Paula e Tonio”, “Nós viveremos como vivem os pássaros” e “A visita do médico”), um média-metragem (“A palavra final de Quincas Berro D’água”) e conclui também um mestrado em Artes. Retorna ao Brasil em 1974, fixando-se inicialmente no Rio de Janeiro.

De volta a Vitória, atua como editor do jornal A Tribuna e é designado diretor do Teatro Estúdio da Fundação Cultural do Espírito Santo. Escreve e monta diversas peças teatrais, entre elas “Alinhavo” e “Revolução de Caranguejos”, e inicia seu trabalho como diretor na TV Educativa do Espírito Santo, onde assina os Telecontos Capixabas, importante iniciativa de teledramaturgia.

Ao longo dos anos 1980 integra a equipe do Laboratório de Aprendizagem da Ufes, produzindo diversas obras em vídeo. Dedica-se ainda à literatura, publicando romances (“Um lugar sem importância”, “Outra vez a esperança”), contos e livros infantojuvenis (“Terror nas sombras”, “Hipergame”).